obrigado, vô
as paredes estão amareladas.
Sonho com a renovação da sala e da família, imagino a cor dos meus pulmões, a minha próxima tatuagem, um vaso. Descubro os calos da minha mão enquanto aprecio meu novo cubo branco, com tinta no cabelo, nos cílios e na boca; lembro da tábula rasa, procurando os documentos necessários para retificação de prenome e gênero.
Visito o canto do quarto, o chão do banheiro e os armários da cozinha, coletando vestígios de amor, pânico e desejo. Sinto o tempo lento ao perceber o luto tomar conta das conversas, piadas e lembranças; penso nas camadas, de tijolo, reboco, massa e tinta, o chão de pedra colorida, os azulejos desenhados, tudo aquilo que constitui uma casa, um lar. Lembro do meu vô pintando as janelas, cuidando do jardim e varrendo a calçada, ausências que resistem a sua imagem parada na cadeira no canto esquerdo da sala, cigarro em mãos e cinzeiro de chão. Na última vez que visitei, meu vô disse meu nome, ouvi de longe enquanto se referia a mim com clareza; e hoje penso nele quando reparo as rachaduras da parede, as dobradiças dos armários, a certidão de nascimento.
Tudo parece estar caindo aos pedaços, a casa e o corpo clamam por restauro e reforma, por cor e alegria; vejo a cicatriz aberta na parede do quarto da minha mãe, escondida atrás dos bancos do nosso antigo apartamento. Lembro como foi fácil pintar aquelas paredes de gesso, em um tempo que nada parecia possível pra mim. Penso em como, naquela noite, você salvou a minha vida. Agradeço pela herança de tijolos que você me deu, com eles construirei um império de barro.
Obrigado, vô, por deixar as paredes amareladas.
publicado na 2ª edição do jornal sem gosto