Homens, mulheres e sexualidade
Recentemente, vi no Xwitter algumas discussões sobre transmasculinidade que me deixaram com umas pulgas atrás da orelha. Homens trans são diferentes dos homens cis, e nunca seremos iguais. Considero essa uma constatação verdadeira, embora ela não deixe de ser dolorosa para algumas pessoas. Em uma das respostas, um homem trans diz como é triste perceber que sua própria comunidade nunca o veria como um “homem de verdade”. Em outras, vi pessoas apontando o quanto essa era uma opinião mais difundida pelos homens trans que possuem certo grau de passabilidade.
Essas discussões me incomodaram. Eu, que hoje pareço homem, não sou cis. Não nasci assim. Até uns 5 anos atrás, eu era mulher. Fui a primeira criança da minha família, a irmã e a prima mais velha; me ensinaram a agir como menina, como se comportar, vestir e atuar; onde já se viu menina falar palavrão, arrotar, sentar de pernas abertas? Comecei a não gostar de ser menina quando descobri tudo que isso implicava, mas ainda desconhecia alternativas para sair do inferno que eu considero o “universo feminino”. Eu tinha cadernos de anotações que me serviam como um guia para ser menina; eu seguia tutoriais na internet, que me ensinavam como andar, falar, se maquiar, se depilar e emagrecer. Seguir esse padrão, na minha mente de criança e adolescente, era obrigatório; me ensinavam que as mulheres também eram livres, desde que não quisessem ser outra coisa.
Também descobri a minha falta de “sexualidade” nessa época. De quem você gosta? Me encurralaram. A única saída era falar que gostava do outro gordinho da sala, que sempre era colocado comigo nas atividades em dupla, já que eu era quieta e ele, bagunceiro. Uma das minhas amigas disse que eu precisava perder peso se eu quisesse ficar com ele; ninguém gosta de uma menina gorda. Me pergunto se os amigos dele falavam o mesmo. Quando mudei de cidade, decidi melhorar. Comecei a contar as calorias, 500 por dia, tinha um aplicativo para isso; eu terminava o dia com meio litro de chá verde ou preto, uma “massagem modeladora” na cintura e 100 agachamentos e abdominais; cheguei a pesar 55kg e eu ainda me achava gorda. Com 12 anos, ouvi meu pai dizer que esperava que eu continuasse gorda, para nenhum homem me querer. Com 13, fui num casamento e minha tia me perguntou o que eu usei debaixo do vestido para parecer tão magra. Com 14, meu namorado me pediu para emagrecer, 65kg são muitos. Com 15, um homem de carro me para no estacionamento do mcdonalds para me dizer que eu seria linda depois de uma lipo. É engraçado como os comentários sobre meu peso pararam quando comecei a parecer, visualmente, um homem. Seria esse meu privilégio?
Se você nasceu homem, é provável que tenha tido uma infância diferente. Se você nasceu mulher, também. O que eu pretendo fazer aqui é discutir sobre como nossa formação nos afeta, seja ela como homem ou como mulher. Se você teve a sorte de nunca tentar se encaixar em nenhuma dessas duas categorias, parabéns. Me sinto livre como homem, já que desfruto dos privilégios da masculinidade. Mas não sou um “homem de verdade”. Por quê? Por que não tenho pau ou bolas? Por que não sou muito misógino? Eu odeio a ideia de ser mulher, sim, mas também não me sinto muito confortável com a ideia de ser homem. Por quê? Não desfrutei desses privilégios desde sempre; comecei a “passar” por homem há uns dois anos, mas ainda toda vez que fico de frente ao espelho sou lembrado que ainda tenho os mesmos olhos, a mesma boca; o meu bigode e a minha barba ainda não são cheios o suficiente. Será que um dia serão?
Lembro da primeira vez que fiz terapia. Depois de alguns meses de tratamento, comecei a me desprender de tudo que me constituía; minha terapeuta apontou a minha vontade de me dissociar de tudo que é considerado feminino; minha aversão a ser desejada, abusada e invalidada; comecei a usar roupas mais largas, pintei, cortei e raspei o cabelo. É uma pena que ela estava muito fixada no complexo de Édipo para reconhecer os abusos que eu sofria do meu pai, dos meus amigos e dos meus namorados. Hoje, vejo como os homens crescem livres para violentar e as mulheres para serem violentadas. Ser homem significa ter e desfrutar dessa liberdade, enquanto ser mulher implica fechar a boca e gostar. Essas são as duas opções que sempre nos foram dadas, ensinadas e propagadas. Hoje, sei que tudo isso é mentira; sei que não existem diferenças palpáveis entre “homens e mulheres”, mas essas categorias continuam influenciando o modo como nos relacionamos, pensamos e vivemos.
Me identifiquei como bissexual por muito tempo. Não porque eu era atraído por homens e mulheres, mas sim porque para mim não importava; não era atraído por ninguém. E eu continuo assim hoje, de certa forma. Depois de começar a transição, continuo não sendo atraído por pessoas ou genitais, mas me atraio por outras coisas; em parte por causa da testosterona, em parte por causa da terapia, eu comecei a apreciar o pelo, a carne e a gordura; eu gosto de acariciar, lamber, morder, chupar e servir. Já me identifiquei como assexual pela falta de atração “sexual”, como arromântico pela falta de atração “romântica”, como gay porque acho homens gostosos, mas só os que parecem com minha “meta” de transição (gordos e peludos). A impossibilidade de classificar meu desejo já me trouxe muita angústia, mas agora vejo isso como liberdade.
Não sou homem, nem mulher. Ninguém é; pelo menos não de verdade. Já me identifiquei como não binário, após reconhecer tudo isso. Ninguém é homem, mulher, hétero, gay, trans, cis, ou qualquer outra coisa “de verdade”; nós somos o que somos, crianças, adolescentes, adultos e idosos, pessoas em formação e em transformação. Sim, eu nunca quis ser mulher, mas também não queria ser, necessariamente, um homem. O que me incomoda de verdade é como grande parte das discussões dentro da bolha queer ainda giram em torno das ferramentas de classificação, invalidação e opressão criadas para regular as nossas vidas; a liberdade é incorporada pelo homem, o desejo é limitado pelo sexo e a experiência é mediada pela heteronormatividade. Até quando aguentaremos viver dessa forma?
A identificação normativa pode até parecer acolhedora; ser visto e percebido como homem é o único caminho apresentado àqueles que não querem ser vistos e percebidos como mulheres. Lembro de perguntar pro meu terapeuta, depois de me dar conta de tudo que escrevi aqui, se era por isso que eu era trans. Com a ajuda da testosterona, fiquei mais peludo, com a voz um pouco mais grossa e o xixi mais fedido. No uber, o motorista me mostra fotos da namorada gostosa do melhor amigo e me pergunta uma nota. Meu pai me manda um vídeo pornô. Me encurralaram de novo.
Seria esse, realmente, um privilégio?
publicado no substack amebairro