Além dos dentes, o que carrego de você?
Já faz tempo que planejo usar seus dentes. Desde quando me entregou o pacotinho 5 anos atrás, esses pedaços de gente caminham comigo a mais tempo que você; e talvez esse tenha sido o melhor presente que você me deu.
“O país está inacabado como uma escultura: vê a sua geografia: falta-lhe terreno, escultura inacabada: invade o país vizinho para finalizares a escultura, guerreiro-escultor.
O massacre visto de cima: escultura. Todos os restos de corpos podem ser o início de outros assuntos.”
Um Homem: Klaus Klump, p.8.
Ao ler o romance Um Homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares, fui convocado a enfrentar sua narrativa detalhista, claustrofóbica e repetitiva de um lugar que é, ao mesmo tempo, familiar e grotesco; forçando-me a ouvir ecos de uma família em guerra, perdida entre os muros no tempo, entre dunas de pó e orgulho. A violência do texto é palpável, tudo é descrito em tamanho, peso e cor; o tempo parece insistir em oscilar, repetindo-se quando necessário e contendo-se em frases curtas e parágrafos pequenos.
“Som preto, som exatamente preto como se existisse uma água grossa, água compacta, água inorgânica, água cujo barulho inexplicavelmente lembrava fragmentos do corpo.
Era, esse, o som que existia depois de uma bomba rebentar: o som da água preta a grandes temperaturas, água preta e grossa, que lembrava partes do corpo humano.”
Um Homem: Klaus Klump, p.38.
Apoiado no cavalo, um animal “tão forte e orgulhoso” (p. 18), o que faz o homem? De frente a tanques militares, quão pesado é um tijolo? Acima dos ataques aéreos, qual é a escala da cidade? Além dos dentes, o que carrego de você?
“O cavalo apodrecido no meio da rua, coberto por milhares de moscas, não tinha vindo uma única vez no jornal. Aquela rua não interessava: era estreita, os tanques dificilmente podiam ser felizes na rua que era agora centralmente ocupada pelos restos de um cavalo que apodrecia. A cabeça do cavalo está vazia, está mais pequena que a cabeça de um pássaro. A cabeça do cavalo é um balde preto, vazia por dentro.”
Um Homem: Klaus Klump, p.18.
Vi, nessa imagem, você. Você que me deu vida, sustento e dentes; você, que agora apodrece no centro da rua, estranho, nojento e sozinho, você. Pelos embaçados contornos da natureza humana, já não te entendo como homem nem cavalo, mas como resto; a cada dia, uma mosca leva mais um pedaço seu, um dente meu e um pouco de nós; tiro as minhas mãos dos bolsos e amasso alguns quilos de argila, separo minhas casas e seus dentes, e construo sua cidade em cima desse vaso vermelho.
“O pensamento torna-se uma parte da paisagem quando não se transforma em ato. E a paisagem é uma coisa que se pisa ou vê.”
Um Homem: Klaus Klump, p.43.
Lembro das casas onde moramos, visitamos e convivemos; do seu traje branco, da cidade entre colinas, do rio que transbordava com a chuva, inundando o centro, as ruas e os cavalos.
Enterrado no fundo desse rio, agora vive o resto de você, morto, apodrecendo, como um balde preto, vazio por dentro.
Você, que extraiu esses dentes apodrecidos e me deu de presente; está deserta. Resta apreciarmos a paisagem.