videodrome

 

Civic TV, a que você leva pra cama com você.

Escrito e dirigido por David Cronenberg, Videodrome, A Síndrome do Vídeo, é um filme de 1983, que segue Max Renn, diretor da pequena emissora de TV a cabo Civic TV. Depois de captar o sinal do programa videodrome, que exibe a tortura, assassinato e mutilação de “pessoas voluntárias” (em sua maioria, mulheres), Max fica obcecado, com fé que a exibição do programa salvaria o futuro de seu canal. A obsessão de Max cresce e se materializa em Nicki Brand, uma radialista local, que se mostra abertamente interessada não só por Max, mas também por videodrome. 

O contraste entre os dois personagens é percebido desde sua primeira interação. Como de costume para os filmes do diretor, a sexualidade feminina aparece como uma oposição direta àquela do protagonista homem; a liberdade com que Nicki expõe e explora seus desejos assusta Max; mas a contenção inicial do personagem se desfaz a partir do ato sangrento e sexual de perfurar e lamber. Tortura. Assassinato. Não é exatamente sexo., diz Max; Quem disse?, indaga Nicki.

À medida que se expõe ao programa, Max começa a ter alucinações cada vez mais palpáveis, alucinações com videodrome, com Nicki, com a televisão. O aparelho o chama, em um tom sedutor e familiar; a fita pulsa, a TV geme, e a tela torna-se tão maleável como pele e gordura; em casa, Max adentra a imagem de Nicki para poder torturar seu telecorpo no cenário de videodrome. 

A tela da televisão é a retina do olhar da mente.

Portanto, a tela faz parte da estrutura física do cérebro.

Portanto, tudo o que aparece na tela da televisão configura-se como uma experiência para quem assiste.

Portanto, a televisão é realidade e a realidade é menos que a televisão.

Se, em 1983, a batalha pela mente humana seria travada pela televisão, pelo vídeo, hoje essa guerra acontece pelos celulares, pelas redes “sociais”. Videodrome é uma arma, um vírus transmitido via vídeo, um dispositivo criado para contaminar quem o assiste, permitindo a mutação e programação do seu hospedeiro; Civic TV, então, agiria como um vetor mecânico, transmitindo o programa apenas aos consumidores regulares de pornografia. Para nós, que evoluímos junto às tecnologias, essa mutação pode até parecer natural; a nossa existência, pública e digital, já está há muito tempo, como previa videodrome, mesclada com nossa vivência carnal e privada. O novo orifício de Max é preenchido pelo revólver e pela fita cassete, enquanto os nossos já parecem cheios de Instagram, Xitter e TikTok. As alucinações tomam a forma da carne, assim como a TV e a arma; videodrome integra-se ao cérebro, tornando-se parte de nós; Afinal, não há nada real fora da nossa percepção de realidade, não é mesmo?

Entretanto, como Cronenberg adverte, a apropriação da nossa mente, do nosso cérebro, do nosso desejo e da nossa carne faz parte de um grande projeto colonizador; videodrome parece materializar, então, a forma como nossa função desejante foi colonizada pelo regime de poder capitalista e pornográfico, recobrindo-a com valores monetários, semióticas da violência, modos de objetivação consumista e submissão depressiva. O tato desloca-se de nós ou do outro para a tela e o teclado; os olhos ficam cada vez mais cansados e a mente, desinteressada; a realidade é alucinação. Por um processo deliberado de programação, estamos sendo forçados a viver a realidade do telecorpo; o telefone celular se encarna na mão e no cérebro; é um novo órgão; a realidade é videodrome.

Diante da fabricação de uma subjetividade adicta, cujos desejos se amoldam ao processo de produção de capital e de consumo e de reprodução sexual e colonial, Max e Nicki, assim como nós, agem como promotores da própria destruição. Nosso tumor continua crescendo, enquanto somos penetrados e penetramos a tela; enquanto seguramos a arma encarnada em nossas mãos. A mutação da carne e do sexo tende a acompanhar a renovação da tecnologia e da violência; hoje, é com nossos webórgãos que sentimos, transamos e nos transformamos. Seduzidos por pixels e códigos, acabamos perdidos em batalha; não percebemos que, além da mente, o corpo também está sujeito aos regimes de controle e vigilância transmitidos via web. Na portabilidade dos celulares e na globalização das redes “sociais”, escondem-se dispositivos como videodrome, dispositivos criados para deformar, ainda mais, nosso senso de realidade e percepção. Como Max, agora nos resta reconhecer e questionar seus usos, nomear seus velhos criadores e apontar-lhes a mão. Morte à videodrome! Vida longa à nova carne!

*Um dos desenhos originais de Rick Baker para a arma-carne biomecânica, uma luva feita de isopor e latéx, coberta de lubrificante, vestida por James Wood. Esculpida por Tom Hester, a luva era acionada por um sistema de tubos e um gatilho, que deixava Woods atirar bolas de fogo de gás freon. Em outro dos conceitos orgânicos de Baker, a arma tinha olhos, boca e prepúcio (foto apêndice), mas o diretor descartou a ideia por ser muito gráfica. (tradução livre)

publicado na 4ª edição do jornal sem gosto

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Homens, mulheres e sexualidade