nem todos morreremos, mas todos seremos transformados
1- Gênesis.
No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
(BÍBLIA, A T. 1993, p. 49)
No princípio, nasci da revolta. “E tu serás peregrino e errante sobre a terra.” (BÍBLIA, A T. 1993, p. 52). Com meu lar e família agora me negados, sigo com uma marca permanente; incapaz de me redimir pela morte. O meu Deus não tem favoritos, ele diz, enquanto rejeita os frutos do meu trabalho. Uma simples ida ao campo resulta em sangue e fúria, destrói minha inocência e sinaliza uma nova descendência, que logo será exterminada no dilúvio.
Caim, assassino original, desafiou seu Deus como homem, como ser criado à sua imagem. Aquele, inicialmente moldado do barro, agora ignora os conselhos do seu Deus criador e mata seu irmão, no campo, retornando-o à terra. Despreza o trabalho de Deus assim como ele o insultou, ao ignorar sua oferenda.
Um pequeno capítulo da bíblia agora carrega o sinal de Caim para todos aqueles que insistem em serem ouvidos e apreciados pelos seus deuses criadores; para todos aqueles que se permitem sentir inveja, desejo e raiva. Reconheci a marca amaldiçoada na minha carne no momento em que meu pai me chamou de filha, enquanto citava a bíblia.
Maria perguntou ao anjo: “Como se fará isso, pois não conheço homem?”
Respondeu-lhe o anjo: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível.”
(BÍBLIA, N T. 1993, p. 1346)
Maria, humilde serva do Senhor, virgem e cheia de graça, foi a escolhida entre as mulheres para transformar o Verbo em carne. Todas as meninas querem ser Maria, humilde serva do Senhor, virgem e cheia de graça; bendito seja o fruto do vosso ventre, Jesus. Destinada à maternidade, Maria, depois de parir e criar o menino, acompanha seu filho até a morte e o segura em seus braços quando é descido da cruz. É uma benção.
Como Maria, humilde serva do Senhor, virgem e cheia de graça, encenei essa história na escola. Meus colegas me disseram que eu deveria ter demonstrado mais emoção ao pegar meu filho morto no colo, evidenciando minha falta de instinto materno desde os meus 10 anos. Na formatura do ensino infantil, a honra de coroar Santa Maria, Mãe de Deus, ia para o melhor aluno da sala. A escola era um convento, e eu era obrigado a fazer balé no recreio. Com a carne imatura já modelada nos moldes do pai, espera que seja feita vossa vontade e abençoado seja nosso ventre. Maria, mulher angélica, Imaculada Conceição, morre no campo. A terra, agora, é fértil.
2- A carne.
O que afirmo, irmãos, é que nem a carne nem o sangue podem participar do Reino de Deus; e que a corrupção não participará da incorruptibilidade.
Eis que vos revelo um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta (porque a trombeta soará). Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.
(BÍBLIA, N T. 1993, p. 1480)
No livro “Poetics of the flesh”, de Mayra Rivera, a autora traça conexões e paralelos entre passagens bíblicas e filosofias contemporâneas, apresentando novas leituras e interpretações dos antigos escritos, enquanto pontua e questiona as relações de poder que eles estruturam. Uma carne pecadora, diferente e perigosa, entra em oposição com um espírito comportado, evoluído e transcendental. No segundo capítulo, Abandoning Flesh: The letters of Paul, Rivera parte da análise de algumas passagens de Paulo em sua primeira carta aos Coríntios, discutindo a divisão entre o corpo físico e o espiritual em contraste com as hierarquias de gênero.
Para o escritor judeu helenístico Fílon de Alexandria, por exemplo, as duas histórias da criação estabelecem uma distinção entre corpos espirituais e materiais—e, por consequência, entre homens e mulheres. (...) A diferença de gênero pertence aos níveis inferiores do ser; o espiritual não é nem masculino nem feminino. Mas a noção de andrógeno espiritual desliza para uma hierarquia de gênero em Fílon—como frequentemente acontece em nossos tempos. (...) “Pois quando aquilo que é superior, nomeadamente a Mente, se torna um com aquilo que é inferior, nomeadamente a Percepção sensível...” ele acrescenta, implicando que o homem é para a mulher como a mente é para a percepção sensível. Quando a mente se torna uma com a percepção sensível, “ela se resolve na ordem da carne, que é inferior, na percepção sensível, a causa motriz das paixões.” Carne, percepção sensível e a causa das paixões compartilham essa esfera inferior—que é feminizada—uma suposição comum já na antiguidade. (RIVERA, 2015, p. 31-32)
A carne feminina, marcada pela sedução e luxúria, é adestrada pelo espírito masculino de controle. A mulher não tem lugar no Reino de Deus, será crucificada pelo homem, assediada pelo anjo e estuprada pelo Espírito Santo. Virgem Maria, devota serva do Senhor, é também Pietá, Mãe de Deus, pois a ele nenhuma coisa é impossível. Depois de domar as bestas, ele faz as rédeas para direcioná-las, alinhando seus passos aos gritos da trombeta; Deus, pátria e família.
Descrever a nova identidade (espiritual) no corpo de Cristo como universal é, no entanto, um equívoco, pois implicitamente infere o cristão como universal. (...). Embora as imagens dos corpos espirituais tenham sido representadas como um ideal de corpos sem gênero, essas imagens muitas vezes implicam a universalização do masculino, ou "andro-gênero", como observa Karen King. Portanto, apesar de seu apelo evidente, a imagem da coletividade como corpo espiritual também é desafiada pela sua potencial implicação na subordinação das diferenças a uma nova identidade construída como universal. A influência contínua dessa imagem e as tensões que a acompanham explicam por que esses textos ainda são o local de discussões filosóficas sobre os universalismos cristãos/ocidentais. O apelo por uma realidade unificadora além das particularidades corporais relacionadas ao nascimento ou à etnia—em nome da religião ou da nação—e a tendência de imaginar tal realidade como espiritual persistem. (RIVERA, 2015,p. 40-41)
Paulo é um dos que mais insistem na oposição e no distanciamento entre carne e espírito. O teólogo Kai Daniel Moore, em seu artigo Paul’s Flesh: A Disabled Reading of Flesh/Spirit Dualism, investiga as leituras que mostram indícios de que Paulo era uma pessoa com deficiência, um fato que dificultaria sua vivência e socialização na época. Também utilizando como referência o livro de Rivera, o autor utiliza de interpretações contemporâneas dos escritos que envolvem o cristão e sua carne, para defender uma leitura alternativa dessas passagens.
Pessoas cujos corpos são negativamente marcados na sociedade em que vivem buscam intencionalmente produzir modelos alternativos de ser um corpo e criar comunidades orientadas por esses modelos. A escrita poética é um exemplo de uma prática de criação — a partir de "histórias fragmentadas", "pedaços de vocabulários", palavras ambíguas e rituais reconstituídos — de espaços imaginativos para a afirmação de possibilidades corporais. Estes também entram na constituição dos corpos, promovendo visões alternativas que relativizam as normas sociais, representando minha sujeição a essas normas como algo contingente à situação. Imagens degradantes do meu corpo ainda me afetarão, mas agora competem com outras imagens, em vez de reivindicar validade universal. (RIVERA, 2015, p.148)
Aos corpos não normativos, resta a criação. Movidos por necessidade e revolta, produzem modos alternativos de sobrevivência e socialização como uma forma de se afirmarem como verdade. Ao identificar fraqueza em seu corpo físico, Paulo insiste na separação e no afastamento de carne e espírito; declara-se válido. Dentro dos limites de suas crenças, reusa antigas histórias e simbologias, profetizando novas relações a partir da sua escrita. Como apóstolo de Cristo, envia sua carta de aconselhamento Aos Coríntios, materializando a potência do seu espírito através da palavra.
Num momento, percebo minha carne, pálida; sinto o vazio dos meus pulmões, a finura da minha cintura e a maciez da minha pele. Seguro o enjoo na garganta enquanto empalho minha carcaça, informe e vazia. Num abrir e fechar de olhos, percebo meu corpo cansado, meu sangue parado e minhas unhas feitas. Ao som da última trombeta, avisto nossa senhora no espelho, implorando por redenção. Como uma mulher de boa conduta, criada em cativeiro, preservei a santa imagem por duas décadas; agora, com sua mão no meu pescoço, meus passos estão baixos e minha voz, impotente. “A terra corrompia-se diante de Deus e enchia-se de violência.” (BÍBLIA, A T. 1993, p. 54).
Cansado das doutrinas marianas, penso em fugir da Assunção; falta-me graça e respeito. Incapaz de te ver partir, oro por ti, Maria de Nazaré; rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém.
3 - O barro.
De pele e carne me revestiste,
de ossos e nervos me teceste:
concedeste-me vida e misericórdia;
tua providência conservou o meu espírito.
(BÍBLIA, A T. 1993, p. 622)
O altar, um ponto de ligação entre o humano e o divino, representa uma súplica poderosa, modificando o espaço em função da fé. Comecei por aqui.
Com uma breve pesquisa acerca da visualidade e dos elementos que constituem um típico altar caseiro católico, queria me apropriar dessa composição múltipla e improvisada; refazendo, com formas deformadas e cores específicas (vermelho, marrom e dourado), as esculturas de santos, os candelabros, as velas, os quadros e imagens da parede, além da incorporação de alguns vasos maiores e, posteriormente, uma fonte. A instalação seria montada de forma improvisada, utilizando móveis de madeira diversos como apoio, integrados pela pintura da parede. Seria um altar que anunciaria minha defesa do fazer sensível através da carne, defendendo-a do controle espiritual, do masculino transcendente e de Deus.
Porém, durante os 4 meses que passei criando mais de 40 peças únicas para esse trabalho, o barro me apresentou novas relações, uma nova potência foi descoberta, e, de repente, minha devoção tomou forma. Uma forma orgânica, obtida pela deformação da argila em torno de moldes improvisados, reutilizados e nada refinados. O jornal amassado me permitiu moldar a terra, antes informe e vazia, através da sua compressão, expansão e deformação. Ele me serviu de suporte e sustentação enquanto o cobria de placas flácidas, apertava a argila entre meus dedos e a banhava com água, puxando e afinando seus extremos.
No segundo dia, começava o processo de refinamento. Fora de seus suportes de papel, as paredes exteriores dos meus novos seres já se sustentavam sem ajuda. Utilizando uma esteca de arame como um bisturi, retirava camadas dos seus tecidos grossos, harmonizando as finas paredes de carne plástica. No ponto perfeito do couro, entre o cru e o osso, o corpo de barro consente em ser tocado com mais força e vontade, as pedras de vidro e os boleadores de metal deslizam por sua pele, lustrando-a. “Deus disse: Faça-se a luz! E a luz foi feita.” (BÍBLIA, A T. 1993, p. 49) .
Depois de seca, ela vai e volta do forno. A esmaltação, dos seus pedaços não brunidos, também é um processo minucioso. São 3 camadas aplicadas com pincel, na tentativa de fazer os vidrados reagirem, ressaltando as curvas naturais das formas. Depois das pinceladas, com leveza no toque, suavizo a superfície aveludada e adiciono vidro em lugares propícios, enterrando-os com mais esmalte. Em 1240°, o esmalte se vitrifica, misturando-se com as cores do vidro; o peso, o som e o tamanho das formas mudam, e novas cores e efeitos são descobertos.
A cerâmica nunca havia me tocado dessa maneira. A intensa produção, os mais de cinquenta quilos de argila amassados, formados e refinados, o manuseio bruto e delicado desse material plástico, me revelou sua resistência e força transformativa. Seria pouco posicionar nossa criação como as imagens de santos em um altar caseiro, fazendo alusão a um poder maior. A força do barro, junto a minha carne, dá luz ao trabalho; sinto a secura da minha pele no seu tato molhado, envolvendo-me de desejo e promessa; larga-me obcecado, tentando desvendar cada aspecto de ti. Senhor, me diga os porquês de teus mistérios, revela-me a tua constituição, ensina-me como me transformar contigo.
Como um anjo, o barro me convoca. Me faz promessas no silêncio da noite, nas tardes chuvosas; canta-me uma serenata e me convence a ter fé. E essa fé, agora, se estende a mim. Ainda investigando as relações entre corpos transcendentes e materiais, Moore, em seu artigo Bodies Now and Otherwise: Theology of the Cross and Trans Experience, apresenta a Teologia da Cruz de Lutero em contraste com a experiência de pessoas trans e seus corpos. Lutero propõe a cruz como a única forma de conhecer a Deus, uma experiência que revela o conflito da criação, a complexidade do corpo e a importância da fé.
Alguns, como o próprio Lutero, poderiam argumentar que a vida humana está tão profundamente corrompida pelo pecado que suas propriedades físicas não podem ser consideradas como a intenção de Deus. No entanto, esse argumento não se sustenta diante do corpo sem pecado de Jesus, que reúne tanto a glória da revelação divina quanto a dramática transformação da vida através da morte agonizante, que se converte em vida ressuscitada, unindo todos esses múltiplos significados em sua sagrada carne em transição. Sob uma perspectiva histórica, os conceitos sobre a mutabilidade e a impressionabilidade da carne têm sido usados de maneiras diferentes para reforçar divisões sociais entre os corpos de várias formas, (...). Para falar verdadeiramente sobre os corpos materiais de uma forma que faça justiça à sua complexidade criada e não crie ou perpetue divisões pecaminosas na família humana, é essencial ter em mente que as qualidades transitórias e de múltiplos significados da carne são qualidades de todos os corpos, independentemente de raça, gênero, ou modalidade de gênero (ou qualquer outra localização social), e que essas qualidades não podem ser consideradas efeitos do pecado, mas características essenciais da materialidade em si. (MOORE, 2021, p.12)
O barro me acolhe e me reflete em sua materialidade; a força elástica e sensível da carne é retribuída e absorvida no fazer cerâmico. As barreiras de intimidade e controle são amolecidas com a argila, e posteriormente petrificadas com o fogo; e para mim, nada é impossível. Sinto o cuidado materno com o orgulho da criação, descubro o forno como um novo ventre, e os deuses da terra e do fogo como propulsores da fertilidade criativa. Por meio do trabalho, estudo e experimentação, desvendo novas possibilidades imagéticas e sensoriais; utilizo de uma visualidade milenar e contemporânea, estática e múltipla, que não me deixa a absorver por completo. As formas eretas saltam do vermelho do chão e tomam a forma que preferem, se abrindo ou fechando de acordo com sua vontade; as deformações da parede, pulsam de desejo e excitação, transformando o espaço em carne.
4 - A transformação.
E assim se fez. Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom.
(BÍBLIA, A T. 1993, p. 50)
Por uma fenda vermelha, a cerâmica instiga. À luz do fogo, anuncia sua presença, e, com o leve som da corrente, prende sua atenção. De cada olhar, nasce uma experiência e relação únicas; o desejo de forma torna-se aparente, assim como o de transformação. Robert Morris, em seu texto O tempo presente no espaço, apresenta o conceito de presentness, relacionando-o a trabalhos instauradores de uma experiência espacial em constante mudança, que se estende no tempo. A multiplicidade de formas, tamanhos, cores e acabamentos impossibilita ao espectador capturar com clareza, uma imagem estática dessa composição. As lamparinas, assim como a fonte, perdem sua capacidade convocativa pela fotografia, seus contornos se diluem na memória, e a argila vermelha volta a ser barbotina, disforme e líquida.
A experiência transita entre o espaço e a carne, integrando criador, criação e curiosos. Os anseios do meu corpo são refletidos na massa cerâmica e expandidos pelo espaço, fabricando transições fantásticas e relacionamentos inéditos. Por um vermelho terroso e vivo, incorporo as peças à superfície colorida, diluindo a divisão entre parede, chão e obra. Apresento-te o parto de um corpo pétreo, composto de barro, vidro e tinta, aterrado no gesso do pedestal baixo e equilibrado em pregos no revestimento do muro.
Na união entre barro e carne, presenciei a salvação; sinto sua anunciação entre meus dedos, desde crua e gelada a quando te recebo do forno, petrificada e brilhante. Apoio-me na criação terrena, na constituição da matéria, na mutabilidade humana e no peso da palavra; desenterro e investigo pedaços de mim, perdidos entre cacos ancestrais e livros velhos. Procuro, em meio a histórias terríveis, um capítulo acolhedor, um nome próprio, uma construção que me sustente. “Sabeis que o vosso trabalho no Senhor não é em vão.” (BÍBLIA, N T. 1993, p.1480)
Referências:
BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução dos originais mediante a versão dos Monges de Maredsous (Bélgica) pelo Centro Bíblico Católico. 73ª edição. São Paulo - SP: Editora AVE-MARIA, 1993.
RIVERA, Mayra. Poetics of the Flesh. Duke University Press, 2015.
MOORE, K. D. Paul’s Flesh: A Disabled Reading of Flesh/Spirit Dualism. Feminist Theology, 29(2),p. 130-139, 2021.
MOORE, K. D. Bodies Now and Otherwise: Theology of the Cross and Trans Experience. Currents in Theology and Mission 48:3, p. 8-12, julho, 2021.
TORRE; SALAS. Altares vemos, significados no sabemos: sustento material de la religiosidad vivida. EncArtes multimedia, volume 3, nº 5, p. 206-226, 2020.
MORRIS, Robert. O tempo presente do espaço [1978]. Escritos de artistas: anos 60/70.In: FERREIRA, Gloria, p. 401-420, 2006.